quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Achado fóssil mais antigo de criança.

Autor: Cristina Amorim
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/09/2006, Vida&, p. A26

Uma menina de 3 anos dá o que falar na paleontologia. Selam, que significa paz em diversos dialetos etíopes, é a mais antiga criança já encontrada: viveu há 3,3 milhões de anos e é representante da mesma espécie de Lucy, fóssil achado em 1973 com características mistas de chimpanzé e homem.

O novo exemplar de Australopithecus afarensis, que viveu na África entre 3 e 4 milhões de anos atrás, andava ereta, mas aparentemente podia se locomover pelas árvores.

Selam é pelo menos 100 mil anos mais velha do que Lucy e ajudará antropólogos de todo o mundo a compreender melhor como a evolução atuou desde a separação entre hominídeos e chimpanzés.

'É o achado de uma vida', diz o bioantropólogo etíope Zeresenay Alemseged, do Instituto Max Plank de Antropologia Evolucionária, na Alemanha. 'Esta criança vai nos ajudar a entender muita coisa sobre a espécie a que pertence.'

Os fósseis foram encontrados na Etiópia em 2000 e limpos por cinco anos - os cientistas tiraram grão por grão do material e ainda não acabaram o trabalho. A primeira descrição dos fósseis aparece hoje na revista Nature (www.nature.com).

RENASCIMENTO

O azar de Selam significou a sorte de Zeresenay. O motivo de sua morte prematura não está claro ainda, mas possivelmente uma enxurrada a escondeu sob a lama, protegendo o corpo de animais que comem carniça e das mudanças climáticas. Foi assim que boa parte do esqueleto foi preservado, e em sua posição original.

Ele inclui o crânio completo, inclusive uma impressão do cérebro em arenito, mandíbula com dentes, todas as vértebras do pescoço até a parte baixa do tronco, todas as costelas, as escápulas e as clavículas, o cotovelo direito e parte de uma mão, os joelhos e boa parte das tíbias e dos fêmures. Os cientistas também encontraram um pé quase inteiro (que ainda passa pelo processo minucioso de limpeza), que guarda detalhes de como se locomovia.

A metade inferior do corpo tem sinais claros de bipedalismo, ou seja, a locomoção em dois pés, usada até hoje pelos humanos. Existem poucas dúvidas sobre esta habilidade do A. afarensis.

A metade superior, por outro lado, carrega características muito parecidas com as dos primos chimpanzés, como um pescoço curto e grosso (o pescoço alongado dos humanos serve para deixar a cabeça estável numa corrida) e o estribo, pequeno osso dentro da orelha que fornece equilíbrio ao corpo, bem parecido com o dos chimpanzés. Selam também tinha braços longos, estendidos até os joelhos, e dedos curvos.

Todos esses fatores indicam para um caminho pelas árvores, além do solo. Mas podem também ser resquícios da evolução, sinais de um passado não muito distante, mas sem muito uso. Como dentes do siso no homem moderno.

A resposta pode estar no pé: um dedão grande, que auxilia chimpanzés na escalada, seria determinante. 'O espécime pode ajudar a explicar se o Australopithecus afarensis era mais parecido com chimpanzés ou com humanos em diversas maneiras. Então pode esclarecer uma parte da origem das adaptações humanas', diz o paleontólogo e co-autor do estudo René Bobe, da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos.

Os cientistas também acharam em Selam o segundo osso hióide, que liga os músculos da língua, encontrado em ancestrais do homem. Como é muito parecido com o dos chimpanzés, o som seria 'muito mais atrativo para uma mãe chimpanzé do que para uma mãe humana', diz o co-autor Fred Spoor, da University College London.

Determinar a idade que Selam tinha quando morreu já valeria a descoberta: como é o esqueleto mais jovem de um hominídeo já encontrado, ele fornece detalhes únicos sobre o crescimento e a formação dos primatas.

O Paleontólogo.

Um paleontólogo é um cientista que estuda Paleontologia, e deve possuir conhecimentos em Geologia e Biologia que estuda os fósseis para investigar como eram os organismos e os ecossistemas do passado geológico da Terra. O paleontólogo estuda os fósseis, também, para perceber como estes se formaram e como podem ser usados para a datação relativa dos estratos rochosos em que ocorrem. Para investigar a vida do passado da Terra e estudar os fósseis necessário conhecer bem a geologia dos locais onde estes ocorrem e a biologia dos organismos que lhes deram origem.

Diferente do arqueólogo, que estuda as evidências culturais do passado dos seres humanos, o paleontólogo estuda a vida do passado do planeta Terra, incluindo os fósseis de humanos, mas de um ponto de vista paleobiológico. Apesar de, no que toca à escavação de fósseis de vertebrados, a prática paleontológica se assemelhar a uma escavação arqueológica, a arqueologia utiliza métodos de escavação e de estudo diferentes e usa, por vezes, técnicas de datação distintas.

O fascínio pelos dinossauros trouxe um glamour especial à profissão de paleontólogo, mas isso está longe da realidade. Somente quem passou dias a fio sob sol escaldante, com uma picareta nas mãos, trabalhando arduamente, sabe o quanto é difícil trazer à luz do dia o conhecimento enterrado nos estratos geológicos e quantos calos isso faz. Depois são meses de trabalho de laboratório e de gabinete, preparando, montando e estudando todos os fósseis recolhidos, para no final produzir um documento conclusivo, um relatório ou um artigo científico, que deverá em seguida ser publicado e divulgado entre a comunidade científica e o público em geral. Mas, apesar do trabalho duro do paleontólogo, a sensação de encontrar um dinossauro e contar a sua história, é algo que o dinheiro não paga e não há como descrever esta sensação em um pedaço de papel.

A metodologia de trabalho do paleontólogo varia consoante o tipo de fósseis que pretende estudar (fósseis de plantas ou de animais, de animais vertebrados ou de invertebrados,somatofósseis ou icnofósseis), mas é sempre um trabalho rigoso e meticuloso, pautado por critérios científicos bem definidos, com o objetivo último de recuperar o máximo de informação possível sobre os organismos que povoaram o Planeta no passado geológico. Apesar de a metodologia de trabalho do paleontólogo variar de caso para caso, pode estruturar-se este trabalho em algumas etapas básicas:

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Netuno, Senhor dos Mares.

A. S. Franchini e Carmen Seganfredo.

Netuno, após ter sido engolido por seu pai, Saturno, a exemplo de seus irmãos, foi um dia regurgitado, depois que Júpiter obrigou o velho deus a ingerir uma beberagem mágica.
— Pronto, meu irmão — lhe disse Júpiter, satisfeito, depois de ambos haverem derrotado Saturno e seu poderoso exército na famosa Guerra dos Titãs. -Agora já pode tomar posse do mar, que é a parte do Universo que cabe a você. A mim caberão os céus, enquanto que nosso irmão Plutão reinará nos subterrâneos.
Netuno, todo sorrisos, abraçou o irmão. Mas embora todo o imenso território que lhe coube, não foi isto o bastante para contentá-lo. De fato, Netuno era um deus ambicioso, invejoso e intratável, e desde aquele dia entrou em inúmeras disputas com as mais diversas divindades: contra Minerva, disputou a Ática; contra Juno, o domínio da Argólida; contra Apólo, pelo controle do arquipélago de Delfos; e contra o próprio Júpiter, numa tentativa abortada de destroná-lo, ousadia que lhe custou o castigo de ter de servir o rei Laomedonte e construir para ele, pedra por pedra, as muralhas da cidadela de Tróia.
— Só entro em fria, mesmo! — dizia ele, enquanto carregava as imensas pedras. — E além de tudo ainda tenho de agüentar este tagarela dedilhando a lira o dia inteiro. — Netuno referia-se ao deus Apólo, que também estava ali de castigo por uma falta cometida contra Júpiter.
— Sou um astro — disse o acalorado deus do sol, ajeitando-se numa sombrinha para melhor exercer o seu delicado ofício. — Nasci só para brilhar.
Netuno, para piorar, ainda teve o dissabor de ver-se logrado por Laomedonte, que recusou-se a lhe pagar o serviço.
E assim seguia sua vida, de deus rabugento e colérico, sempre fincando seu tridente no fundo do mar e provocando terremotos a propósito de qualquer contrariedade, a ponto de acabar conhecido como "Netuno, abalador da terra".
— "Netuno, o importuno", eis o que é! — disse um dia Júpiter, perdendo de vez a paciência. — É, não tem jeito mesmo, vamos ter de lhe arrumar uma mulher...
Depois de muito pesquisar, o pai dos deuses chegou à conclusão de que a solução estava nas mãos de Nereu, "o velho do mar". Este deus decrépito era filho da velhíssima Terra e do antiqüíssimo Mar, e tinha uma penca de filhas, as Nereidas, assim chamadas em sua homenagem.
— Mercúrio! — disse Júpiter.
— Sim, meu pai — disse o deus dos pés ligeiros.
— Vá até o fundo do mar e me traga o velho Nereu.
No mesmo instante, Mercúrio, que era extremamente rápido em tudo que fazia, calçou suas sandálias aladas e rumou para o oceano. Dando um mergulho espetacular, chegou até os domínios de Nereu.
Mais tarde, no Olimpo, Júpiter exclamou, ao ver a visita:
— Nereu, velho amigo, que bom vê-lo aqui no Olimpo outra vez!
— O que ordena, deus supremo? — disse Nereu de longas e alvas barbas.
— Quero que ceda uma de suas filhas a meu irascível irmão — disse Júpiter, pondo uma mão sobre o ombro do velho amigo. — Não posso mais suportar as suas teimosias e temo que haja um confronto mais sério entre nós, caso ele não se acalme.
— Pois não, Júpiter poderoso — disse Nereu. — Pode escolher qualquer uma de minhas cinqüenta filhas.
— Cinqüenta? — exclamou Júpiter, puxando o lóbulo da divina orelha. -Mas não eram cem?
— Podem ser cem, como podem ser mil, deus supremo — disse o pobre Nereu, cuja memória já claudicava há muito tempo.
Depois de estudar a questão e analisar uma por uma as Nereidas, chegaram, enfim, a um consenso:
— Anfitrite será a esposa de Netuno! — disse Júpiter, jubiloso.
— Anfi-quem? — disse o pobre Nereu.
— Esqueça — disse Júpiter, dando uma palmadinha na face enrugada do amigo.
No mesmo dia Júpiter comunicou a escolha ao mal-humorado irmão, que decidiu, ainda assim, conhecer a sua futura noiva.
— Vá com calma — disse Júpiter. — As filhas de Nereu costumam ter o senso de independência muito pronunciado.
Mas Netuno, que tinha o senso de prepotência ainda mais pronunciado, não se intimidou.
— Onde posso ir encontrá-la? — disse, já se ajeitando.
— Ela está na ilha de Naxos, junto com suas irmãs — disse Júpiter. Netuno, confiante, partiu de seu palácio azulado no fundo do mar em direção a Naxos, conduzindo seu carro puxado por golfinhos.
Fazia um lindo dia de sol quando chegou às margens pedregosas da ilha. De fato, por cima dos grandes rochedos franjados pelas espumas do mar, lá estavam as encantadoras filhas de Nereu, algumas deitadas, descansando, enquanto outras, mais animadas, executavam os passos de uma movimentada dança. De vez em quando uma delas, estirando sua longa cauda recoberta de escamas douradas, dava um mergulho repentino nas águas verdes do arquipélago: um grande borrifo verde erguia-se, então, como se elas lançassem lá do fundo um imenso punhado de esmeraldas, que subiam, faiscando, em todas as direções.
Netuno, boquiaberto, pasmava para aquela cena paradisíaca.
— Verdadeiramente encantadoras... — exclamou o excitado deus, tratando, em seguida, de sentar-se ligeiro em seu carro.
De repente, escutou a voz de uma das Nereidas.
— Ei, Anfitrite! Venha juntar-se a nós, sua boba!
Os olhos de Netuno voltaram-se para uma grande pedra isolada, que estava situada mais para dentro do mar. A pedra tinha o formato de um leito, magnífico trabalho de polimento operado pelas perfeccionistas Ondas, que durante séculos, com toda a calma, a haviam polido até dar-lhe aquela conformação ideal.
Em cima daquele leito solitário e da cor do chumbo estava estendida a divina Anfitrite. Era uma das poucas Nereidas a ter os cabelos negríssimos, da cor da noite, enquanto que as escamas de sua longa cauda tinham uma brilhante cor prateada, matizada por maravilhosos reflexos azulados e cor-de-rosa que se alternavam ao menor movimento. Com as costas coladas à pedra, Anfitrite dos cabelos negros tinha a face voltada para o alto; seu braço direito, caído sobre o rosto, protegia seus olhos dos raios fortes do sol, enquanto os peitos firmes apontavam para o céu.
Netuno empinou seu carro na direção da Nereida de esbelto corpo. Emparelhando com a rocha, Netuno esteve longo tempo a observar os traços de Anfitrite, para ver se podia confiar em suas virtudes. Mas a ninfa adorável permanecia com o rosto quase completamente oculto pelo braço. O deus dos mares, na verdade, só podia observar direito o nariz perfeitamente aquilino de Anfitrite e sua boca úmida e carnuda, maravilhosamente desenhada para o beijo.
"Que mulher!", pensou Netuno, quase apaixonado. "Se tais são seus lábios e seu nariz... oh, como não haverão de ser seus divinos olhos!"
Um arfar mais indiscreto do deus, contudo, despertou a atenção da formosa Anfitrite. Seu braço caiu e as pestanas de longos cílios recurvos ergueram-se, piscantes — e foi, então, como se duas estrelas houvessem se descortinado. -Divina e encantadora Anfitrite! — disse a voz rouca ao seu lado. — A partir de hoje será minha divina esposa e a você caberá a honra de ser, para sempre, o repositório sagrado de meu divino sêmen.
Anfitrite, assustada, ao enxergar a seu lado aquele homem espadaúdo, de longos cabelos recobertos de mariscos e uma barba hirsuta tostada pelo sol a lhe dizer tais disparates, deu um ágil mergulho para dentro da água. Netuno ainda conseguiu agarrar um pedaço de sua cauda, mas as escamas lisas escorregaram por entre seus dedos, até surgir a grande e quase transparente barbatana, leve e fremente como um leque, que lhe deu uma bofetada, antes de desaparecer nas ondas.
— Para onde foi... ? — bradou o deus, desesperado.
E desde aquele dia Netuno perdeu Anfitrite de vista. Percorreu todos os mares, foi mil vezes ao palácio de Nereu, nas profundezas do mar, mas ninguém sabia dizer onde ela estava.
Irado, Netuno começou a sapatear e a bater ferozmente com seu tridente por toda parte, demolindo os imensos rochedos subterrâneos e provocando, com isso, terríveis maremotos na superfície dos oceanos. Ondas imensas eram cuspidas para o alto e montanhas inteiras arremessadas para as costas das cidades marítimas, levando o pânico a todos os mortais.
Finalmente, Júpiter, no último limite da aflição, ordenou a Nereu que revelasse o local onde a apavorada Anfitrite fora se ocultar. O pobre velho não sabia, mas sua esposa Dóris, como toda boa mãe, sabia — e muito bem.
Depois de um sem-número de pedidos, Júpiter finalmente conseguiu obter da mãe das nereidas o que os rogos e súplicas do velho marido, é claro, não tinham podido alcançar.
— Somente as carícias de sua divina filha poderão suavizar o rude temperamento de meu irmão — disse Júpiter à ainda reticente Dóris. — Quando isto acontecer, e a crosta primitiva de meu irmão houver caído, verá ela que se casou com um homem gentil e atencioso, além, é claro, de ter se tornado rainha de todo um império.
— Rainha de todo um império... — resmungou várias vezes a mãe de Anfitrite, até que finalmente cedeu, embora fizesse questão de afirmar que não fazia o menor caso de vir a se tornar mãe da "rainha de todo um império".
Revelado o esconderijo da filha de Nereu, o impaciente Netuno rumou para lá, silenciosamente, montado em seu discreto golfinho. Dentro de uma caverna, oculta por uma floresta de líquens, estava a assustada Nereida, quando Netuno, pé ante pé, adentrou o recinto.
— Anfitrite adorada! — disse ele, cujas barbas estavam lustrosas do aromático âmbar. — Venha comigo e garanto que não terá jamais motivos para se queixar de mim.
Netuno parecia realmente mudado: trajado modestamente, sem aquele ar arrogante que o caracterizava, havia deixado em casa até o seu horroroso tridente. Anfitrite, cautelosa, estudou ainda, longamente, o aspecto do deus. Depois, ainda indecisa sobre se deveria ou não aceitar aquela proposta, perguntou, amuada:
— E quanto àquele negócio de "meu repositório de sêmen"?
— Oh, não, esqueça esta bobagem! — disse Netuno, baixando os olhos. -Você será, para sempre, apenas o repositório de minha divina devoção e meu divino carinho.
Ainda mais corado por aquele sorriso de superioridade da divina Nereida, Netuno enterrou as unhas nas palmas das mãos e resolveu voltar ao velho estilo.
— Venha, vamos de uma vez, minha rainha! — disse, encurralando-a na parede da gruta úmida e dando-lhe um beijo intenso e apaixonado.
Depois levou-a nos braços até o golfinho e retornaram para o palácio de Netuno, onde ambos, desde então, governam felizes o imenso império dos mares.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Lemúria , o mito do paraíso perdido.

Brasil Escola » Mitologia » Lemúria: O mito do paraíso perdido.

Lemúria é um dos continentes extintos, considerados por muitos como o paraíso perdido, igualmente existe Atlântida, outro continente perdido. Até hoje, historiadores, antropólogos, geólogos, biólogos entre outros estudantes e cientistas, fazem especulações se realmente existiu a terra desaparecida. Assim, Lemúria virou muito mais que um mito, uma possibilidade teórica sobre hipóteses do segredo da formação das civilizações no mundo. A noção de Lemúria surgiu primeiro aos cientistas da metade do século 19, quando o grande entusiasmo pelos novos métodos de classificação e análise biológica apareceu para revelar algumas coincidências estranhas.

A palavra Lemúria foi tirada do termo lêmure, e se refere aos que têm habitat limitado com a África, Sul da Índia e Malásia; animais pré-históricos que na Idade Eocena provavelmente habitaram todo o Hemisfério Norte. Assim, a área que Lemúria deve ter ocupado entende-se o arquipélago malásio, através da costa Sul da África até Madagascar.

Alguns acreditam que Lemúria poderia ter sido "o berço da raça humana". Essa especulação ajusta-se às teorias contemporâneas sobre como a humanidade se espalhou por todo o mundo, numa série de migrações. A partir dessa teoria, criou-se o mito que Lemúria poderia ter sido o Éden, o Paraíso perdido, onde a humanidade surgiu.

Por Letícia de Castro
Colunista Brasil Escola

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Maias continuam a surpreenderem arqueólogos.

Autor: John Noble Wilford
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/05/2006, Vida&, p. A34

Descobertas recentes na Guatemala revelam escrita e simbologia sofisticadas mil anos antes da época clássica

Nos muros sagrados e no interior das galerias escuras de ruínas antigas na Guatemala, arqueólogos estão fazendo descobertas que lançam luz sobre a vibrante civilização maia em seu período de formação, abrangendo mais de mil anos antes da celebrada época clássica.

As intrigantes descobertas, que incluem obras-primas artísticas e o mais antigo escrito maia conhecido, derrubam velhas idéias sobre o período pré-clássico. Ele não foi, como se pensava, uma espécie de idade das trevas de uma cultura que floresceu nos tempos clássicos, em lugares como a espetacular ruína imperial de Palenque (México), começando por volta de 250 d.C. e entrando em colapso misteriosamente por volta de 900 d.C.

No negligenciado centro cerimonial de pirâmides e praças espaçosas, uma localidade remota no nordeste da Guatemala conhecida como San Bartolo, arqueólogos descobriram restos inesperados de murais em cores vivas retratando a mitologia maia da criação e da realeza.

Os murais datam de 100 a.C. Uma coluna de hieróglifos próxima, um ou dois séculos mais antiga, atesta um sistema de escrita já bastante desenvolvido.

CONTINUIDADE

As descobertas, anunciadas ao longo dos últimos seis meses por uma equipe americana-guatemalteca liderada por William A. Saturno, da Universidade de New Hampshire, empolgam a pequena comunidade dos estudiosos da civilização maia.

Eles vêem essas descobertas como fortes evidências da origem antiga e da notável continuidade dos conceitos de cosmologia e governança da cultura maia ao longo de mais de um milênio antes da era clássica.

Depois de uma visita a San Bartolo, Michael D. Coe, estudioso dos maias da Universidade Yale, qualificou os murais como "uma das maiores descobertas maias de todos os tempos". "Estamos entrando numa idade de ouro do estudo pré-clássico", avalia Stephen Houston, especialista em hieróglifos maias da Universidade Brown. Para ele, a pesquisa dos maias será marcada por uma fase anterior à descoberta dessas pinturas e uma fase posterior.

"San Bartolo empolga investigações mais profundas do período pré-clássico", disse Julia Guernsey, especialista em história da arte e iconografia maia da Universidade do Texas. Em seu livro Ritual and Power in Stone (Ritual e Poder em Pedra), a ser publicado em dezembro, Guernsey analisa vários exemplos de fachadas em estuque, murais pintados e monumentos entalhados que ilustram o desenvolvimento pré-clássico da iconografia dos conceitos maias da criação, do mundo espiritual e do poder.

QUADRIFÓLIO

Há um novo foco, disse Guernsey, num motivo comum em monumentos do período clássico que agora é cada vez mais reconhecido já em meados da era pré-clássica, de 900 a.C. a 300 a.C. Ele é conhecido como quadrifólio.

O desenho, parecido com um trevo de quatro folhas, é encontrado em arranjos de pedras, entalhado na pedra ou emoldurado por terra e argila pintada em locais cerimoniais.

Outros exemplos pré-clássicos são examinados em Izapa, onde há quadrifólios e monumentos datados entre 300 a.C. e 50 a.C. Um trono de Izapa é emoldurado por um quadrifólio. Imagens similares foram descobertas em Chalcatzingo, datando de 700 a.C.

Os arqueólogos dizem que o quadrifólio, muitas vezes em associação com canais e bacias d'água, pode ter sido parte da iconografia em cerimônias para os deuses da chuva e da fertilidade. Em outros casos, ele emoldura a entrada de uma caverna, talvez simbolizando a criação e o sobrenatural. Guernsey supõe que o quadrifólio, antes negligenciado, pode ter sido um objeto em exibições públicas nas quais o governante dançava e passava pelo centro aberto, num ritual que demonstrava seu poder de interceder perante os deuses, base de sua autoridade como líder.

ESCRITA MISTERIOSA

Um novo quebra-cabeça ainda sem solução é a escritura maia pré-clássica encontrada em San Bartolo. A coluna de dez hieróglifos, pintados em preto sobre gesso branco, sem dúvida contém escritos maias datados entre 300 a.C. e 200 a.C., dizem os especialistas. Por enquanto, os símbolos são indecifráveis.

Segundo Saturno e seus colegas, a coluna "mostra que um sistema de escrita maia desenvolvido era usado séculos antes do que se pensava". Houston, da Universidade Brown, concorda, afirmando que a sofisticação da técnica do escriba e o repertório de sinais sugerem que "o sistema não foi inventado no dia anterior".