domingo, 9 de agosto de 2009

Presidente Lula cria decreto que provoca disputa por terra.

Título: Decreto de Lula criou disputa por terra, diz Jungmann
Autor: Marchi, Carlos
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/08/2007, Nacional, p. A6

Deputado diz que quilombolas vão brigar pelo mesmo orçamento do Incra para assentar os sem-terra

O reconhecimento de terras de comunidades quilombolas cria sério impasse institucional, afirmou o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), ex-ministro do Desenvolvimento Agrário no governo FHC. Para ele, a regulamentação feita pelo governo Lula para reconhecer os territórios quilombolas estabelece uma disputa orçamentária entre os potenciais remanescentes de quilombos e os sem-terra. ¿É um orçamento só para assentar sem-terra e quilombolas¿, questionou.

Para a deputada Maria do Rosário (RS), vice-presidente nacional do PT, ¿o cobertor orçamentário pode ficar curto, mas a concessão de terra a quem não a tem é uma obrigação do Estado¿. De acordo com ela, são tão legítimas as reivindicações feitas pelos sem-terra como as dos quilombolas. Ontem, o Estado mostrou que 3.524 comunidades reivindicam 25 milhões de hectares que seriam de antigos quilombos, uma área do tamanho do Estado de São Paulo.

DOIS ERROS

Jungmann diz que a regulamentação do artigo 68 das Disposições Constitucionais Transitórias, que prevê o reconhecimento de antigos quilombos, foi equivocada nos governos FHC e Lula. O governo passado definiu que o laudo antropológico para o reconhecimento de antigos quilombos e o assentamento das comunidades deveria ser feito pelo Incra, que, segundo o deputado, não tem conhecimento em antropologia.

Depois o governo FHC transferiu o laudo para a Fundação Palmares, deixando a desapropriação e o assentamento com o Incra. ¿Houve um descasamento, porque o mérito passou a ser julgado na fundação, mas o orçamento que custeia a operação era do Incra¿, disse. O erro do governo Lula, segundo o deputado, foi ampliar o conceito de direito dos quilombolas. ¿Antes se exigia a posse continuada da terra pelos quilombolas, mas o governo Lula acabou com isso e tornou qualquer terra passível de questionamento.¿

Além disso, questiona Jungmann, a Fundação Palmares não tem contraditório na fixação do mérito: como ela defende direitos da população negra, estará sempre simpática a conceder as solicitações das comunidades negras que se auto-intitulam quilombolas. ¿Há casos em que a ocupação continuada está provada, como as comunidades do Rio Trombetas, no Pará, e do Rio das Rãs, no oeste da Bahia. Mas um número grande dos casos que estão surgindo agora não comprova ocupação continuada¿, diz Jungmann.

Maria do Rosário registra que o tema da reparação das comunidades negras é muito recente: ¿Mas a dívida que existe é tão grande que o que está sendo assegurado aos negros será sempre menos que o justo.¿ Ela afirmou que secularmente a responsabilidade do Estado ¿tem sido muito negligenciada com as populações negras¿.

FRASES

Raul Jungmann (PPS-PE) deputado

¿É um orçamento só para assentar sem-terra e quilombolas¿

Maria do Rosário (PT-RS) deputada

¿O cobertor orçamentário pode ficar curto, mas a concessão de terra a quem não a tem é uma obrigação do Estado¿

Mitologia, Simonides.

Esta obra pertence a A. S. Franchini e Carmen Seganfredo.

Havia, certa feita, um poderoso rei chamado Escopas. Seu reino era o da Tessália e não havia ninguém audaz o bastante para contestar o seu poder. Riquezas choviam dia e noite sobre sua cabeça, potentados de reinos vizinhos vinham quase todos os dias prestar-lhe vassalagem, e ainda assim isto não era o bastante para ele sentir-se completa, suficiente e absolutamente feliz.
"O que falta ainda?", perguntava-se todos os dias Escopas.
Um dia, entretanto, escutando a música que saía da lira de Simônides, príncipe dos poetas de toda a Grécia, Escopas compreendeu tudo:
— É isto: um poema épico! — disse ele, dando um pulo de alegria. Imediatamente mandou chamar o poeta.
— Simônides, príncipe dos poetas! — disse o rei, ao vê-lo. — Quero que componha para mim um magnífico poema, que celebre em versos inesquecíveis as minhas gloriosas e inexcedíveis façanhas. Quero que seja de tal forma extraordinário que seja cantado e repetido por todas as gerações futuras. É capaz disto, por certo?
— Sem dúvida, poderoso rei! — disse Simônides, já elaborando mentalmente os primeiros versos da imensa epopéia. Seria uma longa peregrinação, que abarcaria desde os feitos gloriosos dos mais antigos ancestrais do rei, entremeada de muitas digressões, que, por comparação, somente elevariam o mérito do homenageado, até chegar ao cerne do poema, um longo e exaltado canto que ergueria até as nuvens as virtudes e méritos do maravilhoso rei.
Simônides, entretanto, consumiu o cérebro durante um ano inteiro para achar alguma virtude naquele amontoado de crimes e barbáries que era a história dos antepassados do rei. Ambição, inveja, ciúmes, assassínios, estupros, parricídios — havia de tudo naquelas antigas crônicas, menos um feito justo e humano, por mais singelo que fosse, para ser narrado. Mas graças ao seu talento superior conseguiu transformar em beleza todas aquelas selvagens atrocidades.
No dia aprazado para a primeira audição de seu maravilhoso poema, estavam reunidos, enfim, num imenso salão, o rei e toda a sua corte. O tirano Escopas, refestelado em seu trono, sentia um friozinho agradável no estômago. Um gongo soou e o poeta maravilhoso adentrou o recinto sob uma chuva calorosa de aplausos.
— Escopas, poderoso rei da Tessália, temido e amado pelos súditos e pelos reis de toda a Grécia! — disse Simônides, alteando a voz. — Aqui está o produto do meu suado labor, que não tem outro fim senão o de contar em versos perfeitos a trama sublime que as Parcas divinas teceram para compor o tapete glorioso de vossa vida!
Tão logo os aplausos silenciaram, Simônides deu início à leitura da sua maravilhosa epopéia. Todos os circunstantes bebiam suas palavras como quem sorve um saboroso vinho, até que o poeta entrou numa vereda do seu poema, uma longa divagação acerca dos irmãos Castor e Pólux, exaltando as suas virtudes guerreiras, mas que pouco tinham, na verdade, a ver com as do homenageado.
Tais divagações não eram raras no poeta, e seria de se supor que um mortal comum se sentisse feliz em ver-se comparado aos dois famosos filhos de Leda. A vaidade do rei, porém, não admitia comparações, mesmo com os filhos de um deus.
Escopas, sentado à mesa de banquete, entre seus cortesãos e aduladores, resmungava insatisfeito:
— Que têm a ver as proezas dos gêmeos com as minhas?
Simônides, entretanto, entregue à recitação da comprida ode, continuava, imperturbável, a exaltar os feitos sublimes dos Dióscuros.
A leitura do poema estendeu-se, ainda, por longo tempo, até que finalmente o poeta pôs um ponto final na brilhante epopéia. Os aplausos espocaram, entusiásticos, por todo o salão, mas ficara bem evidente a todos — em especial, ao próprio rei — que Castor e Pólux saíam da declamação muito mais exaltados e glorificados do que ele, objeto primeiro da homenagem.
Era hora, agora, do rei ofertar ao poeta a sua prometida paga. Simônides, ainda ofegante da longa recitação, aproximou-se reverentemente do trono do rei, que havia aberto o seu baú de riquezas. Para sua surpresa, entretanto, Simônides viu o rei lhe entregar apenas a metade do conteúdo, ficando com o baú e a outra metade para si próprio.
— Aqui está o pagamento pela minha parte na sua obra — disse Escopas, com um sorriso irado no rosto. — Castor e Pólux, sem dúvida, pagarão pela parte que lhes diz respeito.
Uma gargalhada feroz e ululante estourou em todo o recinto, fazendo com que o poeta, corado e humilhado, retornasse cabisbaixo ao seu lugar.
Durante o resto da noite Simônides esteve assim, abatido e envergonhado, e por onde quer que andasse escutava sempre pelas costas risinhos fungados de deboche. Ninguém ousou fazer-lhe qualquer elogio, com medo de que a imprudência pudesse chegar aos ouvidos do rei insatisfeito.
Assim estava perambulando o poeta pelos corredores do palácio quando viu um lacaio se aproximar e lhe dizer:
— Senhor, há dois homens lá fora, a cavalo, que desejam lhe falar com toda a urgência.
— Quem são e o que desejam de minha pessoa? — indagou Simônides.
— Não se identificaram, senhor — disse o lacaio -, mas disseram que a sua vida depende de ir procurá-los, e a toda pressa.
Simônides saiu para os jardins, mas não encontrou ninguém à sua espera.
— Estranho... — disse o poeta, pensativo. — Estarão alguns gaiatos armando outra brincadeira para me ridicularizar ainda mais?
Simônides estava já regressando ao palácio quando escutou um ruído terrível partir lá de dentro. Diante de seus olhos viu a cúpula do palácio ruir inteira para dentro de onde estava situado o salão de banquetes — lugar onde estivera há questão de apenas alguns segundos.
Quando chegou lá, encontrou tudo em ruínas e, em meio aos destroços, o corpo dilacerado e esmagado do vaidoso Escopas. Entre os seus dentes havia uma moeda — o óbolo dos mortos — e junto dele estava o seu baú, inteiramente vazio. Em volta dele jaziam os corpos de todos os demais convidados, sepultados sob pilhas de escombros ensangüentados. Ao se informar sobre a aparência dos jovens que o haviam procurado, Simônides não teve dúvida nenhuma de que não eram outros senão os próprios Castor e Pólux, que tinham vindo para receber do rei a sua parte.

sábado, 1 de agosto de 2009

Apolo e a Serpente Píton.

Esta obra foi elaborada e criada por : A. S. Franchini e Carmen Seganfredo.

É tudo verdade, Juno: Latona está grávida do seu esposo, Júpiter!
Íris, a mensageira e confidente de Juno, fora quem descobrira a novidade.
— Pois quero esta mulher bem longe de qualquer terra, compreendeu? -esbravejou Juno, enciumada. — Bem longe de qualquer terra.
"Bem longe de qualquer terra", pensou íris. "É um bocado longe."
Latona, com o ventre dolorido, foi obrigada, assim, a percorrer o mundo todo — atravessando, exausta, lugares como o Quio, a Trácia, a Ática, a Eubéia, as ilhas do mar Egeu, sem jamais receber abrigo de quem quer que fosse, em lugar algum. E como se isto não bastasse, atrás dela ainda ia Píton, uma terrível serpente encarregada de devorar os seus filhos. Sem dar um segundo de descanso, a pavorosa serpente empenhou-se na sua tarefa, sem nunca, entretanto, conseguir alcançar o seu objetivo maior.
Assim, depois de muito vagar, Latona acabou por chegar à ilha de Ortígia, onde encontrou, finalmente, um abrigo. Ortígia era uma ilha flutuante, não estando fixa, portanto, em lugar algum, não fazendo parte da terra.
Ali, durante nove dias e nove noites, Latona gemeu sob o império da dor. Mas Ilícia, a deusa que preside os partos, soube dos sofrimentos atrozes pelos quais a pobre mãe passava e resolveu socorrê-la.
— O filho de Latona será o mais belo dos deuses, e para mim será uma honra excelsa presidir o seu nascimento — disse ela às amigas, antes de partir.
E assim foi. Depois de intenso sofrimento, Latona viu seus trabalhos duplamente recompensados: de seu ventre saíram não um, mas dois filhos — um belo menino, de nome Apólo, e uma graciosa menina, chamada Diana.
— Aí tens o dia e a noite, um em cada braço — disse Ilícia, ternamente. Apólo, de pele alva e louros cabelos, de fato era a representação perfeita do sol e do dia, enquanto que Diana, de cabelos negros caídos sobre um colo faiscante, representava a lua envolta pela noite.
Júpiter deu a seus filhos muitos presentes, mas o que mais lhes agradou foi um maravilhoso arco confeccionado por Vulcano. Desde este dia Diana afeiçoou-se de tal modo ao seu exercício, que acabou se tornando a deusa da caça. Quanto a Apólo, tinha em mente, antes que tudo, vingar sua mãe.
— Diga-me, meu pai, onde está a terrível serpente que perseguiu tão cruelmente a minha mãe — disse ele, com os olhos postos no céu -, e irei matá-la com minhas próprias setas.
Latona e seus filhos abandonaram a ilha — que passou a se chamar, desde então, Delos, ou seja, "ilha luminosa", em homenagem ao deus da luz e do sol -e, após vários percalços, chegaram enfim ao seu destino.
— Eis o monte Parnaso, meus filhos — disse Latona, abraçada aos dois. Mas aquele local magnífico, repleto de montanhas e abundante vegetação, escondia também um horror. Era ali que a serpente Píton, filha da Terra, vivia, instalada bem ao pé do monte Parnaso em um imundo covil.
— Chegou a hora, maldita serpente — disse Apólo, enganchando uma flecha em seu poderoso arco -, de acertarmos as nossas contas.
De dentro da caverna partiu um urro tremendo, que fez desmoronar muitas montanhas ao redor. Logo em seguida um bafo pestilencial, um misto de fogo e de sangue, foi expelido de dentro, incendiando tudo que estivesse à sua frente. A serpente medonha escorregou para fora da cova como se fosse uma língua em chamas expelida pela goela escancarada da montanha.
Apolo, após subir em cima de um rochedo, estendeu o mais que pôde a corda de seu arco e mirou no abismo de sua boca infernal. A fera, contudo, desviou-se da seta, dando um salto inesperado e rolando de lado sobre a relva, que ficou toda crestada.
— Apolo, meu filho, cuidado! — gritava sua mãe, abraçada a Diana, que queria se desvencilhar dos braços da mãe para ir ajudar o irmão.
— Não se meta nisto, minha irmã! — bradou o deus solar. — Você é muito nova e frágil para enfrentá-la!
Apólo nem se dava conta de que tinha a mesma idade da irmã, mas naquele momento foi a única coisa que lhe ocorreu para manter a salvo as duas mulheres.
A serpente agora estava completamente em pé — parecia impossível, mas estava completamente ereta, como uma gigantesca palmeira -, e seu ventre, originalmente claro, estava todo coberto do sangue seco e dos ossos esmagados de antigos e horrendos festins. Um silvo ensurdecedor passou sobre o rosto de Apólo, como um vento quente e mórbido que um vulcão houvesse expelido em seu rosto.
Píton entesou o seu corpo e lançou um bote quase certeiro sobre a rocha onde o deus do sol se mantinha precariamente equilibrado. Um grande dente amarelado da serpente ficou cravado sobre a rocha, como se fosse uma gigantesca espada enterrada na pedra. Dela escorria um líquido pestilencial da cor do âmbar e que exalava um odor terrivelmente nefasto.
Apólo foi cair sobre a saliência de um penedo, ainda entontecido pelo bafo mefítico da sua cruel inimiga. A serpente Píton, após relancear a cabeça em várias direções, arregalou suas grandes pupilas horizontais: uma centena de línguas fendidas saíram ao mesmo tempo de sua boca e chicotearam o ar em todas as direções. A temível Píton farejara novamente a sua presa.
Mas antes que volvesse sua cabeça na fatídica direção, Apólo já estava em pé outra vez. Retesando ao mesmo tempo em seu arco três de suas mais afiadas setas, Apólo esticou a corda até que ela quase estalasse.
— Serpente maldita, aqui está o seu castigo! — disse o deus, despedindo as três setas, que partiram sibilando pelo ar.
Já no caminho as poderosas setas foram duelando com as línguas serpenteantes da víbora, e uma chuva delas caiu do alto, decepadas pela velocidade das setas. Em seguida, cada qual tomando seu caminho foi buscar um alvo diferente: a primeira foi alojar-se no olho esquerdo da víbora; a segunda penetrou em seu peito, ausente de escamas, enterrando-se em seu coração; e finalmente a terceira entrou-lhe pela boca adentro, tirando-lhe o hausto da vida. Como uma palmeira que tomba, a serpente Píton caiu, provocando um grande estrondo, que fez tremer a Terra durante oito dias.
Apólo vencera. Tomando então sua lira — que Mercúrio lhe dera de presente -, ele entoou sua canção de vitória, abraçado à mãe e à irmã. Disse a elas, triunfante:
— Aqui enterrarei a terrível serpente, e sobre seu túmulo erguerei um sagrado templo, além de um oráculo, que será em breve o mais famoso de todos.
Era o oráculo de Delfos, local onde todo mortal iria sondar os irrevogáveis decretos das Parcas, as deusas que presidem ao destino.

sábado, 25 de julho de 2009

Mitologia - Saturno

Numa era muito antiga — tão antiga que antes dela só havia o caos — o mundo era governado pelo Céu, filho da Terra. Um dia, este, unindo-se à própria mãe, gerou uma raça de seres prodigiosos, chamados Titãs. Ocorre que o Céu — deus poderoso e nem um pouco clemente — irritou-se, certa feita, com as afrontas que imaginava receber de seus filhos. Por isto, decidiu encerrá-los nas profundezas do ventre da própria esposa, à medida que eles iam nascendo.
— Aí ficarão para sempre, no ventre da Terra, para que nunca mais ousem desafiar a minha autoridade! — exclamou, colericamente, o deus soberano.
A Terra, subjugada, teve de segurar em suas entranhas, durante muitas eras, aquelas turbulentas criaturas e suportar, ao mesmo tempo, o assédio insaciável e ininterrupto do marido. Um dia, porém, farta de tanta tirania, decidiu a mãe do mundo que um de seus filhos deveria libertá-la deste tormento. Para tanto escolheu Saturno, o mais jovem de seus rebentos.
— Saturno, meu filho — disse a Terra, lavada em pranto -, somente você poderá libertar-me da tirania de seu pai e conquistar para si o mando supremo do Universo!
O jovem e ambicioso Titã sentiu um frêmito percorrer suas entranhas.
— Diga, minha mãe, o que devo fazer para livrá-la de tamanha dor! — disse Saturno, disposto a tudo para chegar logo à segunda parte do plano.
A Terra, erguendo uma enorme foice de diamante, entregou-a ao filho.
"Tome e use-a da melhor maneira que puder!", disseram seus olhos, onde errava um misto de vergonha e esperança.
Saturno apanhou a foice e não hesitou um instante: dirigiu-se logo para o local onde seu velho pai descansava. Ao chegar no azulado palácio erguido nos céus, encontrou-o ressonando sobre um grande leito acolchoado de nuvens.
— Dorme, o tirano... — sussurrou baixinho.
Saturno, depois de examinar por algum tempo o rosto do impiedoso deus, empunhou a foice e pensou consigo mesmo: "Realmente... demasiado soturno."
E fez descer o terrível gume, logo abaixo da cintura do pobre Céu.
Um grito terrível, como jamais se ouvira em todo o Universo, ecoou na abóbada celestial, despertando toda a criação.
— Quem ousou levantar mão ímpia contra o soberano do mundo? — gritou o Céu, com as mãos postas sobre a ensangüentada virilha.
— Isto é pelos tormentos que infligiu à minha mãe, bem como a mim e a meus irmãos — respondeu Saturno, ainda a brandir a foice manchada de sangue.
Os testículos do Céu, arrancados pelo golpe certeiro da foice, voaram longe e foram cair no oceano, com um baque tremendo. Em seguida, o deus ferido caiu, exangue, sobre seu leito acolchoado, sem poder dizer mais nada. As nuvens que lhe serviam de leito tingiram-se de um vermelho tal que durante o dia inteiro houve como que um infinito e escarlate crepúsculo. Saturno, eufórico, foi logo contar a proeza à sua mãe.
— Isto é que é filho — disse a Terra, abraçada ao jovem parricida. Imediatamente foram soltos todos os outros Titãs, irmãos de Saturno. Este, por sua vez, recebeu a sua recompensa: era agora o senhor inconteste de todo o Universo.
Quando a noite caiu, entretanto, escutou-se uma voz espectral descer da grande cúpula côncava dos céus:
— Ai de você, rebento infame, que manchou a mão no sangue do seu próprio pai! Do mesmo modo que usurpou o mando supremo, irá também um dia perdê-lo...
Saturno assustou-se a princípio, mas em seguida ordenou a seus pares que recomeçassem os festejos.
— Ora, ameaçazinhas... Deus morto, deus posto! — exclamou, com um riso talhado no rosto.
Mas aquela profecia, irritante como um mosquito, ficara ecoando na sua mente, até que Saturno, por fim, reconheceu-se também meio soturno:
— Será que uma vitória, neste mundo, não pode ser nunca completa?

Ecoturismo e Mudança Social na Amazõnia Rural.

Ecoturismo e Mudança Social na Amazônia Rural: efeitos sobre o papel da mulher e as relações de gênero
Nelissa Peralta, Edna Ferreira Alencar


Resumo


O ecoturismo tem sido desenvolvido com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população, principalmente em áreas rurais, mas há poucas pesquisas analisando o que os projetos representam para os indivíduos. O artigo discute as mudanças sociais na esfera doméstica da unidade domiciliar principalmente no que se refere ao papel da mulher e às relações entre gêneros. A pesquisa foi realizada em uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável na região do Médio Solimões, utilizando como metodologia a observação participante e entrevistas abertas. Os resultados da pesquisa demonstram que o ecoturismo gerou renda de forma significativa, aumentando em 148% o poder de compra em uma das comunidades estudadas. O acesso à renda provocou maior independência econômica para as mulheres, maior poder na alocação de recursos, maior acesso a redes de comunicação fora da esfera doméstica e maior reflexão sobre as desigualdades entre os gêneros, mas não necessariamente uma diminuição destas desigualdades.

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