terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Fósseis.

Fósseis (do latim fossilis) são os restos materiais de antigos organismos ou as manifestações da sua actividade, que ficaram mais ou menos bem conservados nas rochas ou em outros fósseis.


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Entende-se por:


1. restos materiais – evidências de partes do organismo como ossos, dentes, troncos, chifres, ou o corpo inteiro em casos excepcionais;


2. manifestações de actividade são de dois tipos –
a)vestígios orgânicos, como estruturas reprodutoras (ovos, sementes, esporos, pólenes, etc.), excrementos (cuprólitos) e restos de construções orgânicas;
b)rastos, designados por icnofósseis ou icnitos, como pegadas ou impressões de outras partes do corpo (dentadas, por exemplo), pistas, galerias abertas em rochas, esqueletos ou troncos, etc.



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Para que se forme um fóssil é necessário que as evidências sofram uma série de transformações químicas e físicas ao longo de um período de tempo. Assim, só se consideram fósseis os vestígios orgânicos com mais de 13.000 anos (idade aproximada da última glaciação do Quaternário – o Würm).

Conteúdo do site-blog www.fossil.uc.pt

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A Lenda do Boto.

Lenda do Boto
Origem da lenda do Boto, personagem do folclore brasileiro, folclore amazônico, cultura popular


Boto cor-de-rosa: uma lenda da época da escravidão


Introdução

A lenda do boto tem sua origem na região amazônica (Norte do Brasil). Ainda hoje é muito popular na região e faz parte do folclore amazônico e brasileiro.

O que diz a lenda

De acordo com a lenda, um boto cor-de-rosa sai dos rios nas noites de festa junina. Com um poder especial, consegue se transformar num lindo jovem vestido com roupa social branca. Ele usa um chapéu branco para encobrir o rosto e disfarçar o nariz grande. Com seu jeito galanteador e falante, o boto aproxima-se das jovens desacompanhadas, seduzindo-as. Logo após, consegue convencer as mulheres para um passeio no fundo do rio, local onde costuma engravidá-las. Na manhã seguinte volta a se transformar no boto.

Cultura popular:

- Na cultura popular, a lenda do boto era usada para justificar a ocorrência de uma gravidez fora do casamento.

- Ainda nos dias atuais, principalmente na região amazônica, costuma-se dizer que uma criança é filha do boto, quando não se sabe quem é o pai.

No cinema

- A lenda do boto foi transformada num filme em 1987. Com o título de Ele, o boto, o filme tem no elenco Carlos Alberto Riccelli, Cássia Kiss e Ney Latorraca. A direção é de Walter Lima Junior.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sexto congresso GIFE sobre Investimento Social Privado.

6° Congresso GIFE abre inscrições.
Publicado em 8/12/2009 por Redação, nas categorias Agenda cultural, Almanaque Brasil Cultura, Antropologia, Cultura, Destaques, Gestão Cultural, História, Notícias, Sociologia.
Estão abertas as inscrições para o 6° Congresso GIFE sobre Investimento Social Privado, que reunirá cerca de mil lideranças nacionais e internacionais ligadas ao campo social. Com o tema Visões para 2020, o evento será realizado no Rio de Janeiro, de 7 a 9 de abril de 2010.

Em busca de uma visão estruturante para o Brasil que queremos, estarão em pauta durante o Congresso as complexidades dos novos arranjos do Investimento Social Privado, sua legitimidade e sustentabilidade, e a reflexão sobre quais serão os rumos a seguir pela próxima década.

Com foco na diversidade e diálogo, foram programadas formas inovadoras de organizar os espaços, horários e atividades durante os três dias de evento. O conteúdo será dividido em duas grandes plenárias (no período da manhã) e uma série de mesas de debate (à tarde), abrangendo uma multiplicidade de temas. Veja programação completa .

O participante poderá escolher as discussões de seu interesse e necessidade de aprendizagem. Para o final do evento, todos serão convidados a participar do julgamento “Qual o impacto do Investimento Social Privado na realidade Brasileira?”, em que será avaliada a importância do ISP como promotor da transformação social no Brasil.

Para o discurso de abertura do evento, no dia 7, está confirmada a palestra de Barry Gaberman, a principal liderança na promoção da filantropia internacional e ex-vice-presidente da Fundação Ford (EUA).

Faça já sua inscrição, com desconto especial, e garanta seu lugar no evento que irá definir as estratégias do Investimento Social Privado para a próxima década.

Por que Rio de Janeiro?

Como uma das principais vitrines do Brasil no exterior, o Rio de Janeiro pode ser visto como uma síntese dos desafios e dos potenciais brasileiros, na qual a pobreza e exclusão social, contrastam com uma beleza natural única, uma riqueza cultural que faz parte da marca registrada do Brasil no mundo e um potencial econômico imenso, em setores que vão do turismo à própria cultura

O Rio de Janeiro, assim, evidencia os contrastes do Brasil e seu potencial de transformação mais que em outros lugares do Brasil.

Histórico

O amadurecimento do Brasil na busca de soluções estratégicas aos desafios socioambientais o tornou um dos atores de destaque no cenário global. E os congressos bienais realizados pelo GIFE acompanharam essa evolução.

As temáticas das duas primeiras edições do Congresso GIFE (Desafios e perspectivas para o desenvolvimento brasileiro, em 2000, e Construção de uma nova ordem social, em 2002) estavam comprometidas a promover entendimentos entre os principais atores do campo social.

Não por acaso, a programação desses eventos focava nas oportunidades que surgiam com o crescimento do setor e na participação de atores privados nas políticas sociais do Estado.

Nos anos seguintes, a terceira e a quarta edições do evento apontavam para a necessidade de melhorar a gestão das ações socioambientais. A busca por um maior profissionalismo nas práticas de investimento social, somada à percepção de que apenas com algum nível de alinhamento entre o primeiro, segundo e terceiro setores seria possível avançar para uma real transformação social, estabeleceram as bases para as discussões.

Com os temas A cidadania e suas múltiplas dimensões (2004) e Desafios para uma sociedade sustentável (2006), eles buscaram traduzir o que significa o conceito de sociedade sustentável, propondo uma programação que equilibrasse conceitos e práticas.

Finalmente, em 2008, um novo contexto nacional possibilita ao país, como em nenhum outro tempo, consolidar um espaço privilegiado de articulação e proposição no debate internacional. Com o tema Experiências Locais, Transformações Globais, o evento mostrou que é possível fomentar potenciais parcerias supranacionais.

http://www.gife.org.br/

domingo, 24 de janeiro de 2010

fósseis de Hominídeos são achados na Etiópia.

Fonte: O Estado de São Paulo, 20/01/2005, Vida &, p. A13

Mais peças do complexo quebra-cabeça da história evolutiva do homem são descritas hoje na revista científica Nature (www.nature.com). Pesquisadores dos Estados Unidos e da Espanha estudaram fragmentos fósseis de nove indivíduos da espécie Ardipithecus ramidus, hominídeo que pode ter sido primo do Homo sapiens há cerca de 4,5 milhões de anos. Essa não é a primeira vez que a espécie é estudada - o A. ramidus foi descrito em 1994. Agora foram encontrados pedaços de mandíbulas, dentes, mãos e pés no sítio arqueológico de As Duma, na Etiópia. Na revista, os cientistas mostram um dente canino pequeno e grosso, similar ao de outros ancestrais humanos, mas outros dentes, como molares, lembram os dos grandes primatas.

Como poucos fragmentos do A. ramidus foram achados até hoje, pouco se sabe sobre ele. Outros exemplares sugerem que sua cabeça ficava exatamente acima da coluna cervical e ele seria ainda mais baixinho do que o hominídeo mais famoso do mundo, também desenterrado na Etiópia: o Australopithecus afarensis, apelidado de "Lucy", com 3,6 milhões de anos e 1,10 metro.

Para o principal autor do estudo, o paleoantropólogo Sileshi Semaw, da Universidade de Indiana, o achado confirma que hominídeos andavam sobre dois pés já naquela época. "Algumas janelas estão sendo abertas na África para olharmos evidências fósseis dos primeiros hominídeos, mas o quadro que temos de sua anatomia e comportamento ainda é um borrão", disse.

LINHAGEM CONFUSA

A árvore genealógica do homem está longe de ser harmoniosa, cheia de lacunas e ramificações que não vingaram. Além disso, o meio acadêmico ainda discute quando alguns primatas deixaram de se locomover apenas usando as quatro patas para assumir a posição vertical, ainda que com uma caixa craniana pequena e poucas mudanças nos hábitos.

O Ardipithecus é um dos candidatos ao posto, apesar de ainda se parecer muito mais com os chimpanzés do que com humanos. Outro que corre no páreo é o Sahelanthropus tchadensis, ou "Toumai", com 6 ou 7 milhões de anos.

Semaw, apesar de defender a posição ereta do A. ramidus, prefere manter distância da polêmica: "Mais descobertas são necessárias para a completa compreensão das origens biológicas de nossos ancestrais."

sábado, 31 de outubro de 2009

A Antropologia Estrututral.

Fonte : educaterra.terra.com.br/voltaire/index_cultura.htm

Estruturalismo - Lévi-Strauss e a antropologia estrutural.



No campo dos estudos da antropologia e do mito, o trabalho foi levado a diante por Claude Lévi-Strauss, no período imediato à II Guerra Mundial, que divulgou e introduziu os princípios do estruturalismo para uma ampla audiência, alcançando uma influência quase que universal, fazendo com que o seu nome, o de Lévi-Strauss, não só se confundisse com o estruturalismo como se tornasse um sinônimo dele. O estruturalismo virou "moda" intelectual nos anos 60 e 70. Os livros dele ("O Pensamento Selvagem", Tristes Trópicos, Antropologia estrutural, As estruturas elementares do parentesco), tiveram um alcance que transcendeu em muito aos interesses dos especialistas ou curiosos da antropologia Desde aquela época o estruturalismo de Lévi-Strauss tornou-se referência obrigatória na filosofia, na psicologia e na sociologia. De certo modo, ainda que respeitando a indiferença dele pela história ("o etnólogo respeita a história, mas não lhe dá um valor privilegiado", in O Pensamento Selvagem, 1970, pag.292), pode-se entender a antropologia estrutural como um método de tentar entender a história de sociedades que não a têm, como é o caso das sociedades primitivas.


A valorização das narrativas mitológicas



Enquanto a ciência racionalista e positivista do século XIX desprezava a mitologia, a magia , o animismo e os rituais fetichistas em geral, Lévi-Strauss entendeu-as como recursos de uma narrativa da história tribal, como expressões legitimas de manifestações de desejos e projeções ocultas, todas elas merecedoras de serem admitidas no papel de matéria-prima antropológica. Como é o caso do seus estudos sobre o mito (Mythologiques) , cuja narrativa oral corria da esquerda para a direita num eixo diacrônico, num tempo não-reversível, enquanto que a estrutura do mito (por exemplo o que trata do nascimento ou da morte de um herói), sobe e desce num eixo sincrônico, num tempo que é reversível. Se bem que eles, os mitos, nada revelavam sobre a ordem do mundo, serviam muito para entender-se o funcionamento da cultura que o gerou e perpetuou. A mesma coisa aplica-se com o totemismo, poderoso instrumento simbólico do clã para reger o sistema de parentesco, regulando os matrimônios com a intenção de preservar o tabu do incesto (cada totem está associado a um grupo social determinado, a uma tribo ou clã, e todo o sistema de casamentos é estabelecido pelo entrecruzar dos que filiam-se a totens diferentes). O objetivo dele era provar que a estrutura dos mitos era idêntica em qualquer canto da Terra, confirmando assim que a estrutura mental da humanidade é a mesma, independentemente da raça, clima ou religião adotada ou praticada. Contrapondo o mito à história ele separou as sociedade humanas em “ frias” e “quentes”, formando então o seguinte quadro delas:

sábado, 10 de outubro de 2009

O tonel das Danaídes.

A.S.Franchini e Carmen Seganfredo.

Belo, rei do Egito, tinha dois filhos: Egito e Danao. Cada qual teve cinqüenta filhos. O primeiro, cinqüenta rapazes, e o segundo, cinqüenta moças. Ora, os cinqüenta filhos de Egito não se entendiam jamais com as cinqüenta filhas de Danao. Em conseqüência, uma guerra civil estourou, lançando uns contra os outros. Após ferozes combates, os filhos de Egito expulsaram do país Danao e suas cinqüenta filhas, obrigando-os a procurar refúgio no reino vizinho de Argos. Felizmente, o rei de Argos, Celanor, recebeu os exilados com toda a generosidade, dando-lhes casa, comida e proteção.
Em reconhecimento, Danao e suas cinqüenta filhas expulsaram-no do trono.
A conspiração começou com um ataque promovido por um lobo contra o rebanho do rei Celanor. A fera, confiante em sua força, abatera o touro que chefiava o rebanho, tomando conta do restante dos animais. Vendo nisto um pretexto. Danao decidiu comprar os vaticínios de um sacerdote influente para que convencesse a corte inteira de que isto era o sinal evidente de uma profecia divina. O sacerdote, diante do povo, explicou então o significado profético do fato:
— O sentido deste acontecimento é evidente e irrefutável — disse. — Significa que uma nova autoridade está prestes a assumir o comando do nosso reino.
— Ai daqueles que se recusarem a se submeter a esta autoridade! — disse Danao, que por conta própria já se proclamara o novo rei.
O povo, assustado, reconheceu imediatamente o novo rei, enforcando em seguida o anterior, numa emocionante cerimônia em praça pública. No reino vizinho, entretanto, a notícia chegara ligeiro.
— Poderoso rei Egito! — disse o mensageiro, que trazia a notícia. — Seu irmão, Danao, agora é o novo rei de Argos!
Temendo que isso pudesse lhe trazer complicações futuras, Egito resolveu prevenir-se, chamando os seus cinqüenta filhos:
— Rapazes, quero que vocês se casem o mais rápido possível com as filhas de Danao! — disse o rei, sem admitir recusas. — Danao agora é rei de um país mais rico e poderoso do que o nosso e precisamos fazer esta aliança com ele.
Egito, na verdade, tinha razão em tentar comprar a amizade de seu irmão. Danao só esperava uma ocasião para pôr em prática a sua vingança. Alguns dias depois, um mensageiro de Egito chegou à corte de Danao, trazendo os cinqüenta convites de casamento. O rei, após dispensá-lo, chamou as suas filhas.
— Minhas adoráveis filhas! — disse -, quero que vocês aceitem o pedido de casamento dos cinqüenta filhos de Egito.
— O quê? Como poderíamos aceitar, se nos traíram de modo tão vil? -exclamaram as cinqüenta moças, indignadas.
— Calma, minhas filhas! — disse Danao, tentando explicar-se. — Depois da cerimônia nupcial, vocês terão o prazer de vingar-se deles todos, matando-os durante a sua primeira noite de amor — completou, com um sorriso.
— Ah, bom... — disseram, aliviadas.
O dia das núpcias chegou. Uma grande festa parou o reino inteiro. Durante a manhã, as cinqüenta filhas de Danao receberam como maridos os cinqüenta filhos de Egito. Um banquete faraônico deu prosseguimento às festividades, até que a noite caiu.
— Agora é preciso que os casais partam para os deliciosos jogos de Vênus! — decretou o rei de Argos, dando a bênção aos recém-casados.
Os casais instalaram-se às margens do belo lago de Lerne, em alvas e espaçosas barracas. De tal forma estava o local protegido da curiosidade do povo, que apenas as estrelas teriam o privilégio de escutar as conversas dos amantes. Dentro de cada ampla barraca, cada uma das filhas de Danao já se despia, revelando aos olhos do respectivo marido as suas formas perfeitas. Sob os travesseiros, porém, repousavam cinqüenta afiados punhais de prata.
Embriagados pela visão de suas cinturas finas e aveludadas, os esposos também começaram a se despir. Antes, porém, que pudessem acalmar o fogo de seus desejos, foram todos apunhalados pelas mulheres, sem dó nem piedade. O sangue espirrou por tudo, respingando até nas estrelas, ornando algumas delas de um halo vermelho.
Depois de consumado o crime, as filhas de Danao arrancaram as cabeças dos maridos, lançando os corpos nas águas do lago, que se tingiu inteiro de vermelho.
Uma delas, no entanto, recusara-se a assassinar o homem com quem recém casara.
— Meu adorado! Amo você e por isto me vejo obrigada a desobedecer a meu próprio pai — exclamou, jogando longe a adaga e caindo nos braços do esposo.
Era Hipermnestra, a única que fez correr naquela noite o seu sangue virginal.
No dia seguinte, todas as filhas de Danao, menos Hipermnestra, apresentaram-se diante do rei empunhando as cabeças de seus cônjuges. Ele exultou ao ver concretizada, finalmente, a sua vingança. Porém, revoltado com Hipermnestra. que faltara com sua palavra, atirou-a num calabouço. Já o marido dela, Linceu. fugiu às pressas para o país vizinho.
No entanto, as danaides, como eram chamadas as filhas de Danao, ficaram outra vez sem maridos.
"Precisamos dar um jeito nisso", pensou o pai das quarenta e nove virgens. Para tanto, decidiu organizar um grande torneio, no qual os vencedores receberiam as mãos de suas filhas em casamento.
— Uma corrida de quadrigas! — sugeriu Danao às moças.
— Oba! — exultaram elas, felizes na expectativa de terem uma nova distração. Na verdade, desde a divertida noite dos punhais as coisas andavam meio aborrecidas na corte.
No dia das corridas, apresentaram-se à corte centenas de concorrentes. As danaides podiam estar certas, ao menos, de arrumar quarenta e nove esposos valentes e destemidos; afinal, não era qualquer um que se dispunha a morrer num acidente de quadriga ou a ser apunhalado na própria noite de núpcias.
Os carros já estavam dispostos na linha de partida. Num balcão, acomodavam-se o rei e suas quarenta e nove virgens. Os competidores, em cima das quadrigas, tentavam conter os cavalos, que escarvavam o chão, ansiosos para lançarem-se na pista. As danaides percorriam com olhos ávidos os corpos nus de seus pretendentes — que estavam livres das vestes, para facilitar a escolha das exigentes mulheres. Foi dada a partida. Uma onda de pó levantou-se à saída dos competidores. Os de trás, sem nada enxergar, logo se embolaram, virando seus carros num amontoado de cavalos, quadrigas e cabeças partidas. Um urro de prazer partiu das arquibancadas, tomadas pela plebe. A pista, no entanto, era grande e circular; assim, enquanto os competidores restantes faziam a volta, os mortos eram recolhidos e lançados num monturo.
— Eia, cavalos! — berravam os dianteiros, que, emparelhados, distribuíam chicotadas no dorso dos cavalos e na cara dos adversários.
Os braços rijos e suados dos homens seguravam com firmeza as rédeas. Do alto da cabeça descia-lhes um suor, que o vento secava rapidamente, mas que se renovava a cada novo esforço que faziam. Os olhos das danaides faiscavam. Seus noventa e oito cotovelos cutucavam-se o tempo todo, a cada novo ângulo de observação que tinham dos corpos dos competidores.
— Aquele lá é meu! — exclamou uma delas, escolhendo o líder da corrida, que tinha os membros lustrosos do óleo que passara por todo o corpo, antes da disputa.
Infelizmente para ela, o carro de seu eleito tombou numa curva, bem em frente à tribuna, lançando-o ao chão como um marionete de madeira. Um grito de horror partiu das virgens, enquanto o corpo do rapaz rodopiava velozmente pelo chão, parecendo um deus hindu de duzentos braços e duzentas pernas. Em seguida, o carro que vinha atrás passou sobre o concorrente, esmagando-lhe a cabeça.
A corrida chegava ao seu final. Os quarenta e nove primeiros competidores cruzaram a linha de chegada, sob a ovação das moças e da ralé ajuntada nas arquibancadas. Cobertos de pó, os pretendentes subiram os degraus da tribuna, indo ajoelhar-se diante das suas futuras esposas. Depois de limpar com seus lenços o suor e o pó dos corpos dos vitoriosos, as danaides depositaram sobre suas frontes douradas coroas de louro.
Enquanto isso, no reino vizinho, Linceu, o marido de Hipermnestra, reunira-se às forças de Egito e invadira o país de Danao. O caos instalou-se.
Danao foi preso e morto. Hipermnestra, a danaide virtuosa, foi libertada de sua prisão pelo esposo. O sangue correu pelas ruas da capital, até que Linceu, o vencedor daquela noite fatídica, transformado em novo rei do país, viu chegada, enfim, a hora de vingar a morte de seus quarenta e nove irmãos. Dirigiu-se com seus soldados até o palácio e ainda chegou a tempo de capturar as virgens, enlouquecidas de medo. Todas as perversas danaides foram, então, passadas a fio de espada, sem piedade. No mesmo dia, suas almas entraram no Hades sombrio; lá as aguardava, impaciente, Minos, um dos juízes do inferno, que lhes decretou uma punição coletiva.
Carregadas de ferros, foram conduzidas até a beira de um imenso lago. Cada qual, portando um pesado jarro de chumbo, foi obrigada a enchê-lo de água até as bordas e levá-lo até a beira de um gigantesco tonel, despejando ali o conteúdo. E assim deveriam repetir a tarefa para todo sempre, até encher o imenso tonel — que não tem fundo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Achado fóssil mais antigo de criança.

Autor: Cristina Amorim
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/09/2006, Vida&, p. A26

Uma menina de 3 anos dá o que falar na paleontologia. Selam, que significa paz em diversos dialetos etíopes, é a mais antiga criança já encontrada: viveu há 3,3 milhões de anos e é representante da mesma espécie de Lucy, fóssil achado em 1973 com características mistas de chimpanzé e homem.

O novo exemplar de Australopithecus afarensis, que viveu na África entre 3 e 4 milhões de anos atrás, andava ereta, mas aparentemente podia se locomover pelas árvores.

Selam é pelo menos 100 mil anos mais velha do que Lucy e ajudará antropólogos de todo o mundo a compreender melhor como a evolução atuou desde a separação entre hominídeos e chimpanzés.

'É o achado de uma vida', diz o bioantropólogo etíope Zeresenay Alemseged, do Instituto Max Plank de Antropologia Evolucionária, na Alemanha. 'Esta criança vai nos ajudar a entender muita coisa sobre a espécie a que pertence.'

Os fósseis foram encontrados na Etiópia em 2000 e limpos por cinco anos - os cientistas tiraram grão por grão do material e ainda não acabaram o trabalho. A primeira descrição dos fósseis aparece hoje na revista Nature (www.nature.com).

RENASCIMENTO

O azar de Selam significou a sorte de Zeresenay. O motivo de sua morte prematura não está claro ainda, mas possivelmente uma enxurrada a escondeu sob a lama, protegendo o corpo de animais que comem carniça e das mudanças climáticas. Foi assim que boa parte do esqueleto foi preservado, e em sua posição original.

Ele inclui o crânio completo, inclusive uma impressão do cérebro em arenito, mandíbula com dentes, todas as vértebras do pescoço até a parte baixa do tronco, todas as costelas, as escápulas e as clavículas, o cotovelo direito e parte de uma mão, os joelhos e boa parte das tíbias e dos fêmures. Os cientistas também encontraram um pé quase inteiro (que ainda passa pelo processo minucioso de limpeza), que guarda detalhes de como se locomovia.

A metade inferior do corpo tem sinais claros de bipedalismo, ou seja, a locomoção em dois pés, usada até hoje pelos humanos. Existem poucas dúvidas sobre esta habilidade do A. afarensis.

A metade superior, por outro lado, carrega características muito parecidas com as dos primos chimpanzés, como um pescoço curto e grosso (o pescoço alongado dos humanos serve para deixar a cabeça estável numa corrida) e o estribo, pequeno osso dentro da orelha que fornece equilíbrio ao corpo, bem parecido com o dos chimpanzés. Selam também tinha braços longos, estendidos até os joelhos, e dedos curvos.

Todos esses fatores indicam para um caminho pelas árvores, além do solo. Mas podem também ser resquícios da evolução, sinais de um passado não muito distante, mas sem muito uso. Como dentes do siso no homem moderno.

A resposta pode estar no pé: um dedão grande, que auxilia chimpanzés na escalada, seria determinante. 'O espécime pode ajudar a explicar se o Australopithecus afarensis era mais parecido com chimpanzés ou com humanos em diversas maneiras. Então pode esclarecer uma parte da origem das adaptações humanas', diz o paleontólogo e co-autor do estudo René Bobe, da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos.

Os cientistas também acharam em Selam o segundo osso hióide, que liga os músculos da língua, encontrado em ancestrais do homem. Como é muito parecido com o dos chimpanzés, o som seria 'muito mais atrativo para uma mãe chimpanzé do que para uma mãe humana', diz o co-autor Fred Spoor, da University College London.

Determinar a idade que Selam tinha quando morreu já valeria a descoberta: como é o esqueleto mais jovem de um hominídeo já encontrado, ele fornece detalhes únicos sobre o crescimento e a formação dos primatas.