terça-feira, 14 de julho de 2009

Deuses são perigosa arma política, no caldeirão religioso da Índia.

Nacionalistas hindus usam divindades em campanha para fomentar polêmica e atacar governo central do país.


BOMBAIM. Em nome de Rama ¿ um dos deuses do panteão hindu ¿ os políticos indianos se envolveram numa virulenta guerra verbal. Contrários à influência ocidental ¿ cada vez maior na Índia globalizada do século XXI ¿ os nacionalistas hindus tentam usar seus deuses como arma política. Uma receita perigosa, num país onde convivem lado a lado povos com religiões, línguas, dialetos, culturas e etnias muito distintas.

Nas últimas semanas os indianos têm acompanhado o bate-boca em torno da existência histórica de Rama ¿ protagonista do maior épico da mitologia indiana, o Ramaiana. Em meados de setembro, a oposição nacionalista hindu entrou na Justiça para tentar impedir a construção de um canal no meio de uma ponte natural que liga a Índia ao Sri Lanka . A oposição se opõe ao projeto afirmando que a ponte é sagrada, e que, segundo a tradição religiosa, foi construída há milhares de anos por Rama ¿com a ajuda de um exército de macacos¿.

Versão hindu de fatwa contra ateu

Para rebater os opositores, o Instituto de Arqueologia da Índia enviou um laudo taxativo à Suprema Corte: a ponte é obra da natureza e Rama é um personagem mitológico, cuja existência não é comprovada por qualquer evidência histórica.

Os nacionalistas hindus, então, acenderam uma fogueira religiosa para tentar chamuscar a imagem do governo parlamentarista de centro-esquerda, liderado pelo Partido do Congresso. Seu slogan: ¿Se você não acredita em Rama você não é ninguém¿. O governo ficou acuado e a ministra da Cultura, Ambika Soni, chegou a colocar seu cargo à disposição. Protestos de rua pipocaram pelo país, deixando dois mortos e vários feridos.

E os nacionalistas hindus prometem intensificar sua campanha contra a construção do canal e contra o governo até novembro, quando o país comemora o Diwal, um festival religioso que homenageia a volta de Rama à sua casa apos 14 anos de exílio.

Notório ateu, Muthuvel Karunanidhi, chefe de governo de Tamil Nadu, estado do Sul, onde fica a ponte, não mediu palavras contra os hindus radicais:

¿ Quem é esse Rama? Em que faculdade de engenharia ele se formou? Quando ele construiu a ponte? ¿ ironizou ele, que chegou a chamar o deus hindu de ¿bêbado¿.

Além de suscetibilidades religiosas, há outros ingredientes apimentados na batalha, como diferenças regionais e brigas entre castas. Em Tamil Nadu a figura de Rama é vista como emblema de uma tentativa de dominação por parte de indianos de castas altas do norte. Ram Vilas Vedanti, líder do grupo radical hindu Sangh Parivar, chegou a emitir uma versão hindu da fatwa (decreto religioso islâmico), prometendo recompensa em ouro pela cabeça e pela língua do ateu Karunanidhi.

¿Eles tentam transformar o mito de Rama em personagem histórico para satisfazer suas ambições políticas e provocar novos conflitos¿, atacou um dos maiores historiadores do país, o ex-reitor da Universidade de Sânscrito Sree Sankaracharya, K. N. Panikkar, em artigo publicado na revista ¿Frontline¿.

Nem o líder pacifista Mahatma Gandhi escapou da guerra santa em torno de Rama. As últimas palavras de Gandhi ao ser atingido por tiros disparados por um radical hindu, em 1948, foram: ¿Ram, Ram¿.

¿ Alguém do Partido do Congresso tem a coragem de dizer que a devoção de Gandhi a Rama era uma ilusão? Não vamos permitir que ninguém levante dúvidas sobre a existência de Ram ¿ esbravejou Rajnath Singh, presidente do BJP (partido nacionalista hindu).

Os seguidores de Gandhi reagiram.

¿ Nenhum partido político pode seqüestrar a herança de Gandhi. Não podem tentar usá-lo nessa guerra política ¿ protestou Amrut Modi.

O deus Rama já havia sido pretexto para uma guerra santa que provocou mais de mil mortes. Em 1992, nacionalistas hindus atiçaram revolta contra os muçulmanos (a segunda religião do país, com cerca de 120 milhões de adeptos): destruíram a mesquita Babri na cidade de Ayodhya, afirmando que aquele era o local de nascimento de Rama. Hoje, os próprios religiosos de Ayodhya rejeitam o uso político de Rama: ¿Os extremistas querem apenas usar a polêmica da Ponte de Rama como ponte para alcançar o poder e ganhar dinheiro¿, disse ao jornal ¿The Indian Express¿ Gyan Das, responsável pelo templo hindu Hanuman Garhi, vizinho à mesquita destruída em Ayodhya.

Krishna também é usado para criar polêmica

Os radicais ainda tentam repetir conflitos como o de Ayodhya.

¿ O eleitor indiano de hoje, integrado à globalização, não vota apenas por emoção ou ideologia. Ele quer ouvir propostas que tragam oportunidade e inclusão ¿ analisou Sagarika Ghose, editora da Rede de TV indiana CNN-IBN. ¿ Vemos hoje a conversão do hinduísmo em produto de marketing, tornando-o mais simples e compreensível para o povo. O hinduísmo é uma religião menos centralizada do que as outras. Não tem um único deus, não tem líder que dita as regras. Por isso os radicais procuram provocar uma nova tragédia como Ayodhya, agora através da polêmica sobre a ponte Ram ¿ explicou o especialista Santosh Desai.

O fôlego dos extremistas é inesgotável. Eles não se contentam em politizar apenas o deus Rama. Krishna, outro deus do panteão hindu, não escapou das garras dos radicais. O gatilho foi um panfleto de propaganda distribuído pelo Ministério da Cultura, no qual está impresso uma tradicional pintura: Krishna em cima de uma árvore, cercado por mulheres nuas que imploram para que ele devolva suas roupas. E a frase: ¿Você vai precisar apenas de uma coisa para viajar de volta a cinco mil anos, um confortável par de sapatos¿.